Testemunho

testemunho 2“Passei um dia com Adália pela Serra d' Aire. Vi os seus olhos brilharem o tempo todo na paisagem, perscrutando, inquieta e criativa, as formas e texturas das pedras e das fragas.

Quando me pede, quase a medo, que lhe faça um texto, dou por mim sorrindo. Soubesse eu faze-lo em pedra e sonho, como ela, e tudo escorreria fácil, tal o trânsito de admiração que tenho pela sua obra, sobretudo pelas “suas mulheres”.

Conheço-lhe o jeito, a forma de ser. Fica muitas vezes em silêncio, olhando e pensando. Porque lhe faltam as palavras. As mesmas que lhe sobram, esculpidas no peito do sonho e nos fascinam. E eu escrevo, sim. Escrevo e descrevo o deslumbre dos corpos elegantes. Tal como a utopia e a carícia, numa viagem cheia de desejos infinitos.

Nesta mostra, uma vez mais, mulheres-coragem erguem-se do maciço, onde sempre habitaram, apenas despidas dos excessos de pedra que as ocultavam.

Sempre achei mágico, na arte da Escultura, o polido entendimento do que já lá estava, como sempre, oculto para quem não sabe. E que a Mestra vai buscar, directa ao corpo e à forma, sempre plena de instinto, de erotismo e de oferta.

A menina tímida que brincava com a pedra cresceu muito. É hoje um exemplo de renovação, interrogação e partida permanente. Do descritivo, partiu para a descoberta de simbolismos maiores, onde, com humor provocatório, a mulher sai por cima do trato vulgar e se converte em deusa superior, desafiadora de todos os tabus.

E como lhe sai fácil o sopro de vida nascido da matéria. A Adália esta cada vez mais a procurar o sonho que nos leva. E a ironia reside no seu ar simples, pacato, quase discreto. Como quem nos pede desculpa de ser, a cada dia, criativamente maior”.

Pedro Barroso (musico, autor e compositor)